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Erotismo por Manu Hawk

Uso a poesia, o erotismo, como minha voz... Calada, contida.

Erotismo por Manu Hawk

Uso a poesia, o erotismo, como minha voz... Calada, contida.

Velho Galpão

Todo fim de tarde o mesmo trajeto do trabalho para casa, o velho galpão no caminho, e você encostado na grade conversando com amigos. Fazendo hora, jogando conversa fora, sei lá, mas estavam sempre ali.

 

Cortar caminho pelo terreno do galpão era a melhor opção, chegava mais rápido a rua principal. E você estava sempre ali, no meio do caminho, nunca nos falamos, apenas olhares, sim, muitos olhares, que começavam a me acompanhar desde a esquina. Você não parava de conversar, mas me acompanhava, olhos lindos me seguiam, eu tentava desviar, mas me chamavam. Abaixava a cabeça, mas voltavam logo buscando os seus, e só paravam de te olhar quando passava por vocês. Um último olhar no fim do terreno, disfarçado, ao atravessar a rua.

Não existia sensação melhor, minutos que o coração disparava, a boca secava, as mãos transpiravam apertando qualquer coisa que estivesse segurando, os olhos queimavam, o corpo gritava, suava frio, cada centímetro em ebulição, transbordando por todos os poros de desejo. Sim, desejando muito ver de perto aqueles olhos, sentir o gosto daquela boca, língua e saliva ao abraçar seu corpo. Delírio... Olho assustada o carro que buzina, acabou o dia.

Atrasei-me, perdi o metrô, outros vieram, lotados, não conseguia entrar. Que raiva, estava cansada, ansiosa e nervosa, desse jeito não ia encontrá-lo no caminho. Como seria um dia sem ver seus olhos me seguindo?

Finalmente cheguei à esquina da rua do galpão, havia escurecido, irritada e com certo medo continuei caminhando. Nunca havia passado por ali à noite. Havia pouca luz, mas ao entrar no terreno vi um vulto perto da grade, me assustei, parei, pensei em voltar, mas no mesmo segundo ouvi uma voz: "Não, não se assuste...sou eu, estou sempre aqui, você me conhece." Não conhecia essa voz, mas vi os cabelos brilharem na pouca luz, era ele, perdi o medo, me aproximei. Aproximei demais, dava pra sentir o cheiro gostoso que sempre havia imaginado. Tremia. Ele sorriu percebendo meu nervoso, iluminou tudo, que coisa linda, nunca tinha visto seu sorriso.

"Quer que te leve?" (perguntou)

"Sim." (respondi)

Nossas bocas se roçaram, línguas desesperadas se buscavam, salivas deliciosas se misturavam. Meu corpo colou no seu sobre a grade, minhas mãos por dentro da sua camiseta alisaram seu peito, seguiram erguendo seus braços, arrancando-a, e segurando suas mãos, assim na grade, sentindo todo seu corpo cheio de tesão. Beijos leves, beijos desesperados, beijos na boca, beijos no corpo, corpo nas mãos, mãos explorando, lábios umedecendo, dedos brincando, braços se envolvendo, corpos roçando, procurando alinhamento. Verdadeiro ritual de línguas, coxas, mãos, olhos... Encaixe. Silêncio agitado, orquestrado, sintonia perfeita de movimentos, olhos se buscam, seu corpo no meu até a exaustão... Gozo. Nos aninhamos abraçados carinhosamente, rimos, rimos muito, baixinho, como só a nós seria possível. Viva a nossa loucura!

Já estava amanhecendo, sorrimos, nos beijamos e seguimos para o fim do galpão, hoje não olhei para trás, nem me assustei com carro algum. Atravessei a rua principal com você!

(por Manu Hawk em 18/08/2004)